Se
eu fosse cego amava toda a gente.
Não é por ti que dormes em meus braços que
sinto amor. Eu amo a minha irmã gémea que nasceu sem vida, e
amo-a a fantasiá-la viva na minha idade.
Tu, meu amor, que nome é o teu? Dize onde
vives, dize onde moras, dize se vives ou se já nasceste.
Eu amo aquela mão branca dependurada da
amurada da galé que partia em busca de outras galés perdidas
em mares longíssimos.
Eu amo um sorriso que julgo ter visto em luz
do fim-do-dia por entre as gentes apressadas.
Eu amo aquelas mulheres formosas que
indiferentes passaram a meu lado e nunca mais os meus olhos
pararam nelas.
Eu amo os cemitérios — as lajens são
espessas vidraças transparentes, e eu vejo deitadas em leitos
floridos virgens nuas, mulheres belas rindo-se para mim.
Eu amo a noite, porque na luz fugida as
silhuetas indecisas das mulheres são como
as silhuetas indecisas das mulheres que vivem em meus sonhos. Eu
amo a lua do lado que eu nunca vi.
Se eu fosse cego amava toda a gente.