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— Não me meçam
as rendas antes de Maio. Até Maio, o milho está prenho. Deita leite. Para
estar bom é preciso que absorva a humidade como o papel mata-borrão absorve a
tinta. O abade de Padornelo é que a sabia toda. Pegava dos butes molhados,
metia-os entre as espigas. Se de manhã os encontrava enxutos, estava em condições
de se malhar.
Hilário Barrelas
presenciava todo aquele renovamento e, insensivelmente, fugia-lhe o espírito
para a conta dos seus anos que, se não lhe pesavam, já não tiniam como o
milho seco na peneira. Casa dos enta, fatídica casa!
Iam
e vinham, lês a lês dos campos, as vessadas ruidosas. O próprio babaréu,
vozes, cores, tarantela das campainhas, denotava que a sementeira se fazia com
esperança.
O minhoto pela sua alegria e o seu trabalho merece todas as graças de Deus e
dos bons génios da terra. O solo é fecundo e a gente olhava para Hilário com
os olhos de amenidade.
Diante das uveiras, trepadas pêlos troncos dos carvalhos, olmos, salgueiros,
amieiros, a que deixaram um penacho de milhafre para que vivam e aguentem a
carga especiosa, enternecia-se com semelhante sujeição da natureza.
Que humildade! Quando a vide não marinhasse pelas árvores, estaria adereçada,
muito acima do solo, em parreiras esbeltas, sempre encostadas aos muros e aos cômoros,
construídas com esteios de pedra ou lousa, finos como varas de pálio.
Haviam-na desterrado para a borda da estrada e dos caminhos, do regato e do
morro, onde não tirasse o sol nem chupasse o húmus necessário às culturas
mimosinhas.
A vide, afinal de contas, era uma silva. Vivia perfeitamente à desmão,
satisfeita com o recanto e as escorralhas da mesa farta. Era uma pobre alegre;
as uvas de enforcado, quando maduras, não pareciam mesmo uma cantiga de melro
ou de peto-real empoleirados nos ramos à beira dos caminhos?!
Chegou depois Maio, terrível e admirável mês, e Hilário Barreias ia logo de
manhãzinha discorrer pela quinta, onde a cada passo a Natureza patenteava seus
laboratórios de integração e desintegração, sem o menor rebuço, era só
deitar os olhos. Levava nos ombros os seus detestados sessenta anos.
Contemplando umas coisas e outras, notou ele que uma força misteriosa e
criadora, tão surda como rítmica, procedendo a compasso, era contra- balançada
por outra que actuava, igualmente às claras, com brusquidão inaudita e
destrutiva por excelência.
A vida, isso que se
chama vida, não era mais que o momento de equilíbrio, efémero como abrir e
cerrar as pálpebras, dos corpos organizados debaixo da acção combinada destas
forças.
Todavia, esse momento ou parêntese representava no panorama universal, com a
sua beleza e o seu drama, uma razão suficiente, por assim dizer, para valer a
pena o Mundo existir.
E não deixava de ser espectáculo emocionante assistir às rápidas e
estupendas mutações que se efectuavam no seio da Natureza, de todo insensível,
neutra em matéria de bem e de mal, sem privilégio de carinhos para ninguém,
embora dispensasse a uns seres prerrogativas que parecem obra de parcialidade.
Nada estava parado.
Um exemplo eloquente de como desapareciam as coisas à superfície da terra, em
poucos anos, às vezes do pé para a mão, estava naquela Quinta do Espinheiro,
registada ainda nas escrituras da arrematação de 1891-92 pelo avô Miguel
Dantas.
Embora desse a casa em ruína, onde ficava ela que já nem a pedra se lhe via?
Restava-lhe o nome em sítio problemático.
Quanto ao mundo dos seres vivos, decerto que uma fatalidade biológica os
condicionava e que o indivíduo só era livre ou só podia julgar-se livre no
tablado restrito em que lhe coubera mover-se.
«Eu quero, mas não mando; determinando-me, se me apetece, não faço mais que
submeter-me a forças que se desencadearam para que eu efective esse acto de
aparente alvedrio. Acima do meu querer, em círculos aparentemente alheios,
desenvolvendo-se concentricamente até a intimidade do ponto, a lei da
interdependência universal, com o seu império e coacção, não deixa de
tocar-me e pesar na insignificância do meu ser. A certa altura da sua escala,
começa ela gradativamente a influir
em mim. Tudo
no Mundo afinal se concatena e se associa, dando lugar a esta especiosa réstia
de alhos que são as coisas diferenciadas no tempo e no espaço.»
Mata fora as aves cantavam e recantavam. Hilário, cabeça dobrada para a terra,
pois lá reside o segredo do mundo que mais imediatamente se propõe à especulação
da nossa inteligência, dizia consigo: — Está dito, tudo morre e tudo volta.
Reparo que uma força criadora, decerto instilada do Sol, palpita de modo tão
intenso que o sentimento da velhice no homem se torna de uma tristeza funérea e
confrangedora.
É pena que se não possa regular a vida como um relógio, andando com os
ponteiros para diante e para trás segundo a nossa conveniência.
Como eu faria da Quinta do Amparo um jardim maravilhoso, a minha estância de
contemplo do Mundo, e de Nossa Senhora, esta doce imagem de faces bochechudinhas,
minha amiga do coração?!
A Primavera, tantas vezes rebelde ao calendário, rejuvenesce tudo menos o
homem. As leis da ciclidade física assim o mandam. Para o ano, por esta altura,
voltarão as aves a cantar. Que chova, que faça um sol radioso, com o mundo
vegetal pletórico de seiva ou mais aganado, à triste planta humana é que nada
a afasta da sua carreira para a morte. Será ela a obra-prima da Criação ou a
pior de todas?
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