|
Eis aqui o relato do Génesis:
“Em toda a terra, havia somente uma
língua, e empregavam-se as mesmas palavras. Ora, emigrando para Oriente,
os homens encon- traram uma planície na terra de Sennaar e nela se
fixaram.
Disseram uns para os outros:
«Vamos fazer tijolos e cozamo-los no forno».
Utilizaram o tijolo em vez da pedra e
o betume serviu-lhes como argamassa. E disseram depois:
«Vamos construir uma cidade e uma torre cuja extremidade alcance os
céus. Assim, tornar-nos-emos famosos para evitar que nos dispersemos por
toda a face da Terra».
O Senhor desceu para ver a cidade e a torre que os filhos dos homens
estavam a edificar. E o Senhor disse:
«Eles constituem apenas um povo e falam uma única língua. Se
principiaram desta forma, nada os impedirá que no futuro reali- zem todos
os seus projectos. Vamos, pois, descer e confundir de tal modo a linguagem
deles para que se não entendam uns aos outros».
E o Senhor dispersou-os dali para toda a face da terra e eles deixaram de
construir a cidade. Por isso lhe foi dado o nome de Babel, por ter sido
ali que o Senhor confundiu a linguagem de todos os habitantes da Terra e
foi também dali que o Senhor dispersou os homens por todos os lados»
Traduzamos:
os homens sem Deus mostram-se unidos e solidários e decidem construir uma
humanidade forte e independente, dominando o mundo e dando-lhe um sentido:
«Demos-lhe um nome!»
Estes homens não se ocupam de Deus; eles constróem o seu futuro com
firmeza, na sua união; eles podem representar a humanidade ateísta, que
se organiza só por si.
Deus mostra-se ciumento desta iniciativa e enfrenta-os; confunde as
línguas e introduz logo a divisão.
Deus quer uma humanidade fraca, humilde e submissa; não pode suportar que
os homens se organizem sem ele, que confraternizem sem terem em conta a
sua existência.
Prefere que discutam e se confrontem, o que lhe confere o papel de
árbitro supremo.
A fé, ou seja, as religiões, como factor de divisão face à descrença
e um factor de solidariedade humana: mas a Torre de Babel não seria ela o
símbolo de uma humanidade ateísta que procura um sentido — o «nome»
— e cujos esforços são aniquilados pela intervenção do sagrado, do
divino, do sobrenatural e do absoluto, que divide e arruína qualquer
esperança de uma união natural?
Esta interpretação não tem muitas possibilidades de ser aceite.
Se se tiver estritamente em conta o
texto, parece-nos contudo uma leitura possível.
De qualquer modo, o episódio pode
ilustrar bem a hostilidade fundamental das religiões acerca da
descrença. Até meados do século xx, crentes e descrentes formam no
Ocidente dois mundos antagónicos, prestes a passar a vias de facto. Mas
isso passa-se ainda numa época muito recente que a oposição parece ter
ultrapassado.
|
|