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Sete anos passou Adão,
deitado de costas
no chão,
inerte,
olhos fechados…
E durante sete anos
pensou,
solerte,
que estava no céu,
num limbo,
o seu.
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Ao fim sete anos
abriu os olhos,
Adão.
Olhou e viu
flores e folhas nas árvores,
borboletas multicores
o Sol a brilhar,
andorinhas a voar
com neblina no céu;
e
havia vapores
e olores
com aromas
de todas as cores,
cravos e
cavalos bravos,
touros negros,
puros,
ónagros,
e tudo era novidade.
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Pensou Adão
que estava no paraíso,
o que não era verdade.
Ideia de pouco siso!
P’ra quem é pouca
A idade.
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E ao fim de sete
anos
olhou Adão de través
para si, a esmo...
E olhou e viu,
lá longe,
ao fundo de si mesmo,
os dedos dos pés.
E durante sete anos
mirou,
com afinco,
todos os dedos
do pé esquerdo,
que eram cinco.
Desde o mendinho,
o junior,
até chegar ao senior,
o dedão;
e viu que cada
seguinte era maior...
e a todos olhou com atenção.
Contente
contou cinco
até chegar ao fim.
Fez o sinal da cruz
como um serafim
e ficou ciente
e riu-se.
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E nos sete anos
seguintes
também olhou,
a eito,
os dedos do pé direito,
que eram iguais aos que vira antes.
Espelho eu sou,
foi o que pensou…
E ficou espantado, abismado,
verificando que eram dez
ao todo.
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E ao fim de sete
anos
olhou Adão
de novo a esmo,
um pouco mais para cima
de si mesmo
e viu o sexo.
E considerou que
eram três.
E achou que as duas bolas
e o pauzinho
deviam servir para alguma coisa.
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E perguntou a DEUS,
que…
Silencioso,
não lhe deu recado.
Mas cioso,
Recatado,
pôs Eva a seu lado
Ainda não sabia,
Adão,
que, com um pauzinho
e um buraquinho
fundo,
Deus tinha criado
toda a confusão
do Mundo.
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E durante sete anos
amou Eva, Adão,
ficando cansado
daquela função;
mas também do trabalho
que tinha
com todo o pirralho
que aparecia
como por magia.
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Mas Eva ficava muito
contente
de cada vez,
porque, insinuante,
ondulante,
a serpente
punha o Adão
a trincar-lhe a maçã.
E assim passaram
mais sete anos vezes sete,
que tantos são os
da virilidade
na maturidade.
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E Adão
chegou aos setenta,
muito novo ainda
na idade que tinha.
E foi então, tão
tarde...
Já tão tarde!
Que o Senhor lhe
ofereceu
pela mão de uma
multinacional
uma oferta colossal
Uns latex
de todas as cores
formas e sabores,
que eliminavam
toda a pretensa
nascença
e branqueavam
a consciência
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E livre de preocupações,
agora,
amou também
uma pastora
sedutora:
Fátima.
E também a Fé,
a Esperança
e a Caridade
e algumas Conceições
cheias de seduções.
e agradeceu a Deus
sete vezes,
porque cada uma
parecia mais pura que a anterior.
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Mas era mais um
engano
que lhe tinha posto
o Senhor
no caminho do amor!
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Sete anos se
passaram e
Adão mirou-se
um pouco mais para
cima,
para o centro de si
mesmo.
E fitou o umbigo,
o centro cósmico,
abrigo,
amigo,
onde se quedou mais
sete anos,
com carinho,
a cogitar
sozinho
sobre a natureza do
ser.
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Nos sete anos
seguintes
mirou o zénite
e olhou e viu
milhões de astros.
Viu planetas;
procurou Marte;
achou cometas;
os aneís de Saturno
encantaram-no...
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E foi dest’arte
que encarou o
infinito,
abordou o Universo
infindo,
inaudito,
e fez uns versos
escreveu lérias
e cantos tersos.
Rasgou a mente,
a esmo,
em cada pensamento,
chegando finalmente
ao cume de si mesmo.
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Nos sete anos finais
amigou-se com a História;
a História
de linha divinais.
Com ela se deitou
em longas bacanais
de grandes epopeias.
E do passado dela
conheceu as teias.
Soube da Odisseia...
Dos Lusíadas a
gesta
e a glória.
Navegou com Ulisses,
amou Helena
a de Troia,
deitou-se com Círce,
decifrou com Édipo
o enigma da Esfinge,
salvou-se com o fio
de Ariadne
do labirinto do
Minotauro...
Voou com Ícaro,
e com Orestes atinge
o cúmulo da tragédia.
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Mas logo em
seguida
a História
conta-lhe o lado
negro
da vida:
tiranos loucos
insanos
em milhares de anos.
Ouviu de Medeia
a morte dos
filhos...
A odisseia
alheia.
Dos negros
a escravatura,
a tortura...
Os autos-de-fé,
feitos na boa-fé,
com os corpos
a contorcerem - se
em chamas de dores
nos últimos
estertores.
O chumbo derretido
vertido
à larga
pelas goelas abaixo.
A pena de talião;
os empalados,
vencidos,
com os membros
decepados
e os corpos
esquartejados.
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A lança a
trespassar Jesus
na cruz;
e o sangue a jorrar,
no altar,
para os cálices litúrgicos
de padres pedófilos
e lúbricos...
As crianças
abusadas
em salas isoladas
em atónitos silêncios.
Os genocídios
nas câmaras de gás,
a morte em vagas
largas
em Auschwitz;
os gritos de horror,
os ódios,
e os churrascos humanos,
os óleos
nos fornos crematórios.
A bomba, atómica
a de “Hiroshima
Mon amour”.
E os esfolados vivos
com a pele a soltar-se
em pedaços
largos;
e tem carne agarrada
com gordura a pingar,
fervente,
em lagos de sangue
rubro e quente.
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Em Dresden
os tapetes de bombas
vastos, largos,
a dizimarem
e a arrasarem
tudo.
As bombas
em Bagdhad:
tecnológicas,
psicológicas,
cirúrgicas,
com largos
danos colaterais.
E
agora as vítimas
feitas algozes
em Israel.
Agora eles,
os eleitos,
velozes
a sacrificar
inocentes
em Canã
também.
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E foi então
que Adão
olhou e viu
que era tarde
e já crepúsculo
e o Sol baixara
no horizonte
Abraçou os filhos
e chorou em berros,
lamentosos urros,
sobre aqueles erros.
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Mas pensou em Deus
e de novo riu
com um modo amargo
de um modo largo.
E foi então
que,
por que era tarde
a vida finda
e tudo inútil
e fútil
que desistiu
e disse:
“puta que
o
pariu.”
Adão
então
fechou os olhos
e lançou-se ao mar
sem saber nadar.
Dizem ainda
que…
mas essa é outra história
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| Faro Barros |
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| 20060728 |
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