Aquela cara que está fixa, imóvel, e que me fita e contempla do lado de
lá
do espelho, é o outro eu que me critica.
De caneta na mão, a pensar, (a velhice
ainda não se atascou por dentro. Só
por fora) é imagem aceitável, sem aqueles olhos desmesuradamente abertos
e
fixos, característicos dos velhos voltados para o último futuro.
Que pensas desse lado do espelho, José?!
Que pensas?! Porque somos dois ou
mais.E não só no espelho. O eu de cá e tu de lá, aparece-me também durante
a vigília, naquela transição que precede o sono, acordado ainda, mas já
a
descortinar os sonhos... E dizes coisas, em voz alta, com as quais
concordo,
mas só por vezes.
Que não sabe nada (diz-me ele)... ela
suspeita somente, e por vezes a verdade desvendada não é o pior. Devias
dizer-lhe...
Não sei. Gosto dela?! Sim, em parte. Sempre calma... sempre cordata.
Calma
como as saias compridas que usa e aquelas botas escuras de que tanto
gosta.
Sempre calma!. Sempre púdica... até na cama. Pouco se mexe.
Isabel é um fogo! Como resistir-lhes?!
Será que não tenho direito a amar duas mulheres!? Porque não?! Gosto
mais
de uma que de outra...
A lucidez como a inteligência, não se
compra, dizes. Mas não é assim:
compra-se nas farmácias, nas livrarias, nas miradas que damos aqui e ali,
na sala com linhas de cadeiras que partilhamos com desconhecidos, sentados
no escuro, quando ouvimos Falstaff. E por ser escuro, como nos sonhos, e
por estarmos atentos, o nosso sentimento expande-se e agudiza-se e fixa-se
em novas parcelas cerebrais, em novas químicas, que aumentam a capacidade
de ver, ouvir e sentir. E nova inteligência e lucidez se adquirem.
E é assim que agora ouço, escuto e
percebo os ritmos do piano, que saem por
uma caixa de plástico e vidro, a nova boceta de Pandora, fonte e torrente
de
imagens e sons (sem perfumes, ainda), por onde em catadupa se escoam os
medos, desejos, esperanças, alienações, efémeras alegrias, misérias e
frustrações das novas sociedades. E sou assim embalado por uma canção
irlandesa... cheia de nostalgia e algas... nevoeiro, ar salgado e
montanhas.
E é passado, e já não sou, de lágrimas nos olhos. E o passado que não
tive,
e se foi, acomete-me. Mundos que não vivi... porque vim tarde, ou cedo mais.
E no alto dos céus, os cornos da lua a
pontar para oriente, iluminam uma
estrada em mar de luz difusa. E na crista da vaga, borrifada de espuma,
Isabel cavalga a onda. E Isabel continua a ser a que imagino o que não é.
E para lá da babugem das ondas que se
estendem pela praia acima, está Margarida, novamente, calma e púdica, com as
formas molhadas, a flutuar no seu vestido comprido de que tanto gosta.