Durante alguns anos estudos
arqueológicos levaram à teoria de que a guerra estava na origem das
civilizações (grandes aglomerados urbanos com estrutura formal e humana
complexas); isto é, a necessidade que pequenos aglomerados, nómadas ou não
(algumas dezenas de pessoas), tinham de se fixar, unindo-se em grupos de tamanho
grande (centenas ou milhares de pessoas) para assim encontrarem a dimensão e os
meios de defesa eficazes contra os predadores inimigos.
E toda esta teoria se devia a que,
em todas as grandes civilizações do passado, por maiores e mais antigas que
fossem, nas que se encontravam, havia sempre despojos de guerra, vestígios de
armas, desenhos ou gravuras de batalhas, corpos mutilados, muros ou muralhas de
protecção, etc., só se encontrando um outro elemento comum a todas elas, o
qual consistia na existência de objectos cerâmicos.
Mais tarde a Dr.ª Ruth Shady
descobriu em Caral, povoação com diversas pirâmides, uma civilização
diferente. Algum trabalho após, encontraram restos de rede para o transporte de
pedras (rede vegetal que permitia assim o exame de carbono 14). Verificou-se
então que esta população civilizacional, no Peru, era anterior a todas as que
se tinham detectado até então na América; era coeva da civilização
egípcia, com cerca de 2,627 anos a.C. E que no mesmo aglomerado não havia
qualquer dos vestígios típicos de guerra, dos anteriormente encontrados, e
posteriores ou não na história da humanidade.
A grande quantidade de sementes de
algodão existentes por todo o lado, mesmo nas paredes das habitações, e a
quantidade de redes de pesca que produziam, levaram os arqueólogos a substituir
a teoria anterior pela de que era o comércio, a troca de mercadorias, que
estava no âmago e na génese das civilizações.
Porque verificaram que não havia
qualquer dos vestígios das outras civilizações que os reconduzisse à ideia
de guerra, mas sim que se tratava de uma população com actividade lúdica,
como o manifestavam inúmeras e belíssimas flautas encontradas, feitas de ossos
de condor e pelicano. População até habituada ao uso reiterado de drogas,
possivelmente afrodisíacas.
Mas eu penso, das descobertas feitas
e dos métodos que usaram, que uma teoria não anula a outra, e que as duas se
fundem nesta que passo a expor:
Quando numa comunidade se descobrem
as vantagens da especialização do trabalho, em qualquer área de trabalho,
porque dela resulta uma maior produtividade, maior economia de energia e mais
rápido desenvolvimento tecnológico, começam a obter-se maiores benefícios na
agricultura, na pesca, na caça, na construção, etc. e assim começa a
civilização.
Porque da especialização resultam
maior eficácia e maiores produções, mas também maior dependência entre
todos, com maior diversidade de caracteres no agregado.
E quando um especializado, em
trabalho de duas horas, faz o que não realiza um não especializado em 4 ou 10
horas, o tempo sobrante passa a espaço lúdico a ser preenchido por ele e pelos
outros.
E mais tempo livre, para todos, é
chamariz e vórtice de convergência para novos habitantes e começa então o
ciclo de desenvolvimento e aumento populacional, fenómeno que ainda se
encontra, hoje, nas principais metrópoles do mundo.
Porque à medida que as tarefas vão
divergindo na especialização, cresce também a quantidade de indivíduos
necessários, capazes de fornecerem trabalho para satisfazer a restante
população.
Mais pescadores são necessários,
mais fabricantes de redes também, e mais caçadores e fabricantes de lanças. E
assim sucessivamente, crescendo a população do aglomerado de centenas para milhares
ou mesmo centenas de milhares.
Especialização técnica no
trabalho, porque me refiro essencialmente a uma série de movimentos das mãos e
braços, conjugados ou não com o das pernas, para se obter determinado efeito
repetitivo de grande produtividade e eficácia, quer na pesca, na agricultura,
na caça, na modelação do vidro, na fabricação do aço, na guerra ou nos
jogos.
Penso por isso que foi a repetição metódica e
sistemática de um conjunto de movimentos, modificados, ajustados e afinados
gradualmente ao longo do tempo, até se obter uma perfeita harmonia, com menor
dispêndio de energia, e atingindo-se um resultado mais rapidamente, que esteve na base do salto civilizacional que conduziu a humanidade da idade da pedra e do
nomadismo até à situação actual.