Coimbra 4 de Abril de 1956
Consolei-me. Não lho dei a entender, mas foi uma hora em cheio. O
desembaraço com que me entrou pela porta dentro do consultório, agradou-me
logo.
O que disse, depois, não se descreve. E quando, no fim da consulta, cobriu a
retirada com as suas imunidades de artista lírica de Fornos de Algodres, deixei-a partir sem pagar, e fiquei a sorrir por dentro, maravilhado. Desdentada,
precocemente envelhecida, vestida dum cetim suspeito, enfrentava a plateia do
mundo com a mesma insolência duma estrela de primeira grandeza.
E eu, que no fundo tenho passado a vida a pedir desculpa de ser poeta, intimamente cioso da condição de artista, mas
publicamente tímido de o
parecer, só não lhe dei palmas no fim da representação para não
desprestigiar a bata e os pergaminhos de Hipócrates.