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| colocado em 20070731 | ||||||||||
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Ao cheiro de Pasárgada, que era o de vida livre, insubmissa mas em equilíbrio, vieram aqueles que sempre surgem ao odor do que desconhecem e supõem entender. Vieram, de narinas abertas; os olhos, porém, cerrados. Acamparam nos arredores. Os arredores de Pasárgada estão povoados de uma fauna impossível: animais diversos (e, entre eles, os rinocerontes da fábula) espalharam-se pelas colinas que eram verdejantes. Agora é desolador o aspecto que oferecem: negras, torcidas, e com árvores queimadas. Mas, nas copas das árvores, há recantos lindíssimos, com sofás estofados, onde meninas bordam sonetos. Cegas. Cegas, e com fácies de rinocerontes. E todos — meninas e animais— falam da cidade que não vêem. Nos arredores de Pasárgada, organizaram partidos políticos. E os partidários de cada partido lançaram, no rio que vai ter a Pasárgada, poemas em forma de barcos de papel. Mas, a meio caminho e muito longe das portas de Pasárgada, os barcos de papel transformaram-se em rãs— e ficaram a coaxar nas margens lodosas. Nos arredores de Pasárgada, instituíram prémios literários; realizaram jogos florais, festivais, congressos, assembleias e academias; e editaram colectâneas de poemas obrigados a mote e dedicados à memória dos poetas de Pasárgada que já não lhes faziam sombra.
Nos arredores de Pasárgada, há jornalistas,
locutores, oradores, comentadores, mães-de-familia, tosses convulsas, filósofos
que falam no Cosmos e pescadores de águas turvas; há barbas crescidas,
caixas de pó-de-arroz, pontífices de Café, meninas com muita
liberdade da família e polícia de costumes. Nos arredores de Pasárgada, a vida é insuportável. Nos arredores de Pasárgada, há um príncipe dos poetas dos arredores de Pasárgada que diz que é príncipe dos poetas de Pasárgada. Nos arredores de Pasárgada, todos morrem desesperados,
com raiva e inveja de Pasárgada. E nos arredores de Pasárgada, os animais que lá estavam
acampados — rinocerontes, jornalistas, locutores, hipopótamos e
papagaios — decidiram destruir Pasárgada. Nos arredores de Pasárgada, só há cadáveres: cadáveres que continuam a fazer versos e continuam a falarem de versos. São cadáveres convictos, respeitados pelas autoridades ou combatidos pelas autoridades; de qualquer modo, relacionados com as autoridades. Em Pasárgada, não há autoridades.
Nos arredores de Pasárgada, os cadáveres possuem postos-de-rádio, recintos de diversões e órgãos da grande imprensa: — todas as coisas que a Pasárgada não fazem faltam nenhuma. E, apesar
deste cerco de cadáveres cada vez mais cerrado, as últimas notícias de
Pasárgada são satisfatórias: continua a andar-se de bicicleta, a
fazer-se ginástica, a montar-se em burro brabo, a subir-se no pau de sebo
e a tornar-se banhos de mar; permaneça a vida livre, insubmissa mas em
equilíbrio, pura e natural, — com grande raiva dos cadáveres dos
arredores de Pasárgada que já roeram, por despeito, as próprias
falanges, falanginhas e falangetas. |
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| DAVID MOURÂO-FERREIRA | ||